Diários do migrante

O Migrante

18 de setembro de 2026 — Instantâneo 13

O migrante é aquele ser humano suspenso entre dois mundos. Conversa com outro migrante, discute com o filho da terra, fala consigo mesmo numa solidão silenciosa. Em cada diálogo, enfrenta ao mesmo tempo a verdade e a fuga.

Levo sempre comigo o papel dos impostos, e quando um deles abre a boca para duvidar de mim, mostro-lhe o papel, dizendo: «Aqui está, o papel dos impostos. Não recebi quaisquer subsídios; és tu quem tira do meu dinheiro.»

Rushdi Abaza. Ninguém falava comigo, e quando o cão chegou, todos começaram a falar comigo. Eu ando com o Rushdi Abaza. Nem a escola me concedia licença, nem por doença, nem sequer pelo meu humor turvo; mas quando o cão chegou, comecei a tirar licenças em nome dele, pela sua doença, pelo seu humor. O cão tira licença, e eu com ele.

Dos seus hábitos diários: folhear as notícias… sem ser parte delas. A pornografia… uma fuga de uma realidade que não lhe concede intimidade. O isolamento… mesmo na multidão das grandes cidades.

O migrante não conversa apenas com os humanos, mas também com essa coisa fantasmagórica, com esse espectro a que chama medo. Fala-lhe? Ou será apenas uma voz interior que o acompanha sem resposta? Toda a narrativa é um instante antes da morte. Assemelha-se ao instante do afogamento, que o migrante conhece melhor do que qualquer outra coisa.

A sua boa sorte é, na verdade, uma morte adiada. No instante em que foge da morte, encontra-se no seu regaço, como se a vida zombasse dele. O instante da morte do seu pai… quando te agarras ao manto do homem na mesquita e chorou como uma criança perdida.

Tu não mentes, não porque sejas sincero, mas porque não sabes como mentir. A mentira é um talento raro, e tu não és dos raros. Ser um livro aberto significa ser um livro fraco. A capa protege o livro, enquanto as páginas abertas se consomem depressa. A migração conhece-te melhor do que tu te conheces a ti mesmo. Ela controla o teu destino. O serviço de emprego concede-te o sustento. O seguro de saúde decide quando viverás e quando morrerás.

O migrante não é um número numa fábrica. Não é uma peça de uma máquina económica. Não é mais uma cor entre as cores da escravatura moderna. Não é seguidor de ninguém… nem da sua mãe nem do seu pai, nem sequer do seu amigo que se afogou antes dele. É mais complexo do que isso. É um ser humano, com tudo o que a palavra significa. Parece-se contigo, senhor branco, mas ninguém se parece contigo na tua fealdade. Conheces-te a ti mesmo? Ou falas para te convenceres da tua existência?

A migração é esfolar o ser humano do seu meio e semeá-lo numa terra estranha. É uma das grandes estações da morte. A migração é uma fuga; até escrever sobre ela é migração, um afogamento em ideias que não sabes para onde te levam. O migrante vê as cenas e projecta-as sobre a sua própria realidade. Uma composição entrelaçada entre as memórias e a realidade, entre o passado e o presente. As memórias não morrem, e a realidade não se vê com clareza. E assim nasce «O Migrante». É o instante em que a ilusão se mistura com a verdade, e a loucura com a razão.

O medo do futuro é o primeiro motor do migrante obstinado. É o que vai longe no seu pensamento, o ilógico no seu sentir, o que se estende na sua religião. A perda do passado é a perda do ser humano. Como diz o provérbio chinês: «Quem não teve passado não tem futuro.» E assim, num determinado ponto… casou-se.

Este livro foi escrito de uma maneira louca. O escritor não sabe porque o escreveu, nem porque não o escreveu. O prólogo é o epílogo, e o epílogo é o princípio. Sem princípio, sem fim, sem direcção definida. É um livro de sabedoria? Ou um livro poético? Ou satírico? Ou algo fora de qualquer classificação? Ninguém sabe. Nem o próprio escritor sabe. Tudo o que sabe é que ama ver a tinta negra sobre o papel branco, e nos olhos dos leitores.

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